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 Histórias de Passarim

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Dandára d'Araçá
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MensagemAssunto: Histórias de Passarim   Seg Set 11, 2017 6:40 pm

Como meu novo eu (olá, vida adulta) tem pouco ou zero tempo para ~dollear~, vou contribuir com o fórum com o que tenho tido tempo de fazer: escrever! A série a seguir sou eu (apaixonada) experimentando uma nova linguagem, mais popular; uma estética, não sei, mas afro-brasileira. Enjoy it!

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Meu ver exagera o azul – diz que é a cor preferida dos aluados. 
Meu ver não é dado a beatitudes, mas faz sagrados do vento que dobra a esquina. 
Aprendi com os bêbados da praça a gostar mais de tortos que direitos. 
Às noites rezo a quem não avoa: à borboleta molhada, ao passarinho de asa quebrada, ao pente e às profundezas. 
Minha cabeça sonha calmarias: ventos brandos e flores mortas na quarta-feira. 
Meu coração anseia movimento e inquietude: aquele escuro úmido por detrás dos dentes à mostra, o mofo escondido, peito pesado no subir das escadas (não se sabe se de fumaça ou choro). 
E ervas daninhas entre os canteiros, que é assim que é a vida. 
A lua move os ciclos das gentes: anseio pela lua. 
De menino, ia ao mato e trazia pra casa os bichos doentes; os bêbados de praça e eu temos preferências por coisas quebradas.

__________

          Ela era, e se sabia. Sabia-se filha de Iemanjá e ostentava com orgulho sua guia, cabeça erguida nos ires e vires de mulher do mar. Sabia do muito sangue que tinha nas veias. Dos muito Preto Véio e guerrilheira, das muita benzedeira e camponês e operário fugido da fome e da guerra que tinha nas veias. Sabia-se dona do pouco que era seu dentre o muito que há no mundo, e sabia de certeza o porquê de haver no mundo tanto se tão pouco era pra ela e pros seus. Era mulher em sua plenitude aguerrida e dançadeira. Sabia-se.
          Por que então, fia minha, ajoelhada na areia feito menina, cabeça baixa?
          Vim buscar tua bença, minha mãe, ela dizia. Trazia nas mãos uma garrafa de levar mar pra longe – tão trêmulas mãos – e sua mãe se compadecia de tanto não entendimento.
          Fia minha – a onda lambia seus pés – minha bença é dentro de ti. O mar é dentro de ti. Num tá vendo tanta água e sal lhe saindo pelos olhos?
          Ela fazia que sim. Fazia que sim e, cabeça na areia, tornada outra vez menina, deixava seu mar sair.

__________

           Ela era. Sabia. Saber era ruim, quando em vez, mas não havia esquecer possível.
           Ela andava pelo mundo, sabendo que, feitos pra ser passarinhos, a gente é gaiola. Olhava a gente no mundo e pensava que era tudo pedra, e sabia que era tudo pedra, e ela também era. E não esquecia nunca, nem mesmo no sono – quando dormia, sonhava pó e pesado.
           Às vezes, porém, por entre as grades da gaiola, sonhava voos, girando girando pelo ar, liberta e só, sabendo-se parte de tudo. Sonhava sua voz pequena desenhando cantos de pássaro, e quando acordava, queria acordar cantando. Mas sabia demais, entendia e não queria entender. Quando acordava, via-se de novo gaiola e pedra e grilhão.
           Mas não era menina de andar de cabeça baixa; sabia do seu muito sangue! E ao mesmo tempo em que sabia das dores da gente, sabia também dos deleites da gente. Sabia-se mulher e forte.
           Ela andava pelo mundo sabendo que, feitos pra ser passarinho, a gente é gaiola. Olhava a gente no mundo e pensava que era tudo pedra, e pensava também que as pedras tinham asas por debaixo.
           Pensava, sabia lá em seu coração miúdo, que se a gente procurasse, achava asas nos bichos gente desse mundo, tão cheios de pena que eram.
           Quando acordava de seus sonhos de voo, queria acordar cantando, e cantou. Com a pena da verdade de ser pedra, grilhão e gaiola, com a pena de saber, com as penas tantas que a gente guarda dessa vida, foi que ela fez suas asas e saiu, dançadeira, pelo mundo.
           Mas não voou. Não, porque não se voa só; o que ela queria era chamar toda a gente a entender suas penas, guardá-las e delas fazer asas pra então, um dia, toda a gente ganhar o céu.

           Feito num sonho. 

__________

           Mas às vezes havia demais de mundo em seu coração. Havia tanto de mundo que ela duvidava do seu saber aprendido de ajuntar penas pra construir asas. E era por isso que às vezes suas mãos de mulher aguerrida e dançadeira se tornavam em pequenas e amedrontadas mãos de menina, e era por isso que às vezes ela vinha se ajoelhar junto de sua mãe, à beira d’água, com sal a lamber seus pés e a escorrer de seus olhos.
           Havia muito de mundo em seu coração miúdo e ligeiro de pássaro, e o mundo, cheio de pedras, pesava e doía.
           Ela pedia à sua mãe que a deixasse entrar, e entrava. Às vezes, o sal sarava as dores de bicho gente que quer voar. Às vezes, não. Às vezes ela pedia à sua mãe que a levasse embora.
           A mãe se compadecia desse não entendimento e a devolvia à praia.
           Nessas horas, sua mãe muito desejava poder dar a ela mais alento e leveza, mas não podia; o mar do lado de fora, por ela, passarinho gente de alma canora, era gentil. Mas nessas horas, o mar de dentro era tormenta, e a mãe nada podia fazer como todo aquele não entendimento.
           E a mãe pensava, triste e lamentosa, quando de mágoa que um coração miúdo e ligeiro aguenta antes de rebentar, e a devolvia à praia.
           Demorava. Demorava muitas vezes até a lua pontar no céu, até a menina de joelhos ralados de areia cansar de sangrar sal e mágoa. Mas o mar ia e vinha e tornava ir, e lambia as dores nos pés, nos joelhos, nas mãos, e ela, finalmente, tornava se encontrar com a mulher que era e sabia ser. E essa mulher, quando olhava pra trás, lembrava e entendia o porquê das coisas, e decidia outra vez que valia a pena.
           Levantava-se, soprava um beijo de gratidão à sua mãe e se ia a enfrentar a dureza do mundo com amor. Sorriso decidido nos lábios, os olhos inchados de sal; nas mãos, a garrafa de levar alento de mãe consigo, ia, a enfrentar a dureza do mundo com amor e falar de asas às pedras.

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MensagemAssunto: Re: Histórias de Passarim   Seg Set 11, 2017 6:42 pm

A "parte II", O Alquimista:
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                Diz que era um homem que morava num quadrado, fazia tanto tempo que nem mais lembrava quanto. É que diz que ele sabia coisas, uma porção de coisas sobre o mundo, e achava importante não esquecer. Por isso que ele se fechou no quadrado, detrás duma mesa; tinha uma missão nesse mundo que era assim:
                Primeiro, o homem pensava. Pensava muito sobre as coisas que sabia, uma a uma. Olhava pra elas. Juntava as que se pareciam e criava uma nova coisa pra saber e pensava bem nela, pra ver se estava certa; se estava, ele escrevia. Apanhava um papel em branco, enchia dessa nova coisa e equilibrava na pilha cada vez maior de papel escrito.
                Nos dias em que seu espírito se sentia ousado, ele juntava saberes que não se pareciam; achava na sua cabeça as coisas mais diferentes e então, cuidadosamente – tão cuidadosamente como quem mistura líquidos coloridos brincando de serem poções mágicas – juntava uma na outra. As pontas espinhosas custavam se encaixar, mas ele, com a paciência de um artesão, lixava, polia, aparava e argumentava. E aí nascia uma coisa nova.
                Por vezes, dessa aventura resultava uma explosão, e ele terminava o dia lamentoso, pensando que aqueles dois saberes não se davam mesmo muito bem. Mas às vezes, a coisa que nascia era tão grande e tão bonita que parecia ouro.
                Feito alquimia, ele pensava, e ria com gosto, e o riso descia e retumbava no seu peito largo e retumbava nas paredes do quadrado que era sua casa. E ele tornava apanhar uma folha em branco pra escrever essa sabença nova.
                E diz que assim foi, dia após dia, sua sina de homem alquimista, meio artesão, meio sábio. Só em seu quadrado, detrás de sua mesa, o homem pensava, experimentava, escrevia e guardava. A pilha de papel escrito tocou o teto, e ele começou uma nova.
                Diz que assim foi sua sina, até o dia em que o impensável aconteceu: o homem viu-se sem papel que escrever. Afoito que era de saber e lembrar, o homem não se deu conta de que, enquanto eram infinitas as ideias, era finito o papel, e sua sina mudou.
                Diz que por dois dias ele não se importou; como sabia se lembrar, não era grave não poder escrever, e pôs-se de novo a trabalhar. Mas a cada hora ele botava no mundo duas ou três ideias novas, e ao fim de dois dias, o homem apanhou-se esquecendo. Quando estendeu um dedinho de pensamento pra uma ideia que sabia que existia e não a encontrou, o homem desesperou-se.
                Desesperou-se, mas não se atreveu a levantar da cadeira. Um movimento em falso e as pilhas de ideias espalhadas pelo quadrado, que lhe haviam custado tantos anos de trabalho, ruiriam, e então – quem sabe quanto tempo levaria para organizar novamente?
                Diz-se que foram mais quatro dias. Parado em sua cadeira, coluna ereta, olhar perdido, num esforço sobre-humano de não pensar. Tinha medo de fazer uma ideia nova e esquecer uma antiga, e não havia nada em sua cabeça de que ele se sentisse capaz de abrir mão. Os dentes e as mãos cerrados com força, o suor escorrendo feito cascata por suas costas. O esforço de não pensar era muito.
                Diz-se que foram quatro dias em que o homem lutou consigo mesmo e seus impulsos, quando finalmente sua força acabou. Ele perdeu a luta, sua concentração fraquejou, e os pensamentos caíram por cima dele com o impacto duma cachoeira. Uma muito alta. Milhares de litros de água ameaçando afogá-lo. Assim é que haveria de acabar, então? Seria ele o primeiro homem a ser enterrado em seus próprios pensamentos?
                Lutando para respirar, o homem se levantou. Nadando às braçadas pra não afundar,
                Papel, cadeira, panelas, tambor, tambor? Não, caderno. TV, pessoas, lugar onde se é? Onde? Comida. Comida, garfo, lápis, fronteira. Alemanha. Não, Brasil. Espera, não posso...
                Nadando às braçadas pra não afundar, o homem chegou à janela. Quase não conseguiu erguer um braço pra abri-la
                Fumaça, oh, sim, eu reconheço. Tiro. Mas tiro pertence a outro lugar. Ou não?
                Abriu a janela.
                O que é isso? Sei que conheço isso, eu sei! Era uma memória que ele havia perdido no meio das outras que invadiam sua mente à força.
                Não, eu sei o que é. Barricada, poesia, não, espera! Bailarina, confeito, boneco (sim, ele se lembrava vagamente), doce. Doce? Por que isso agora? Flor, perfume, mãe (era? Não era). O que era?
                Não soube até que uma rajada de vento entrou pela janela aberta, ventou seus papeis pra o chão e ventou aquela confusão de ideias na cabeça dele.
                Era Passarim.
 
*
                O vento ventou os cabelos do homem, as roupas do homem, os papeis do homem. Mas foi o Passarim quem o sacudiu.
 
*
                Passarim não olhou o homem. Voltava dum voo longo em busca de comida, pois que tinha muitas criaturinhas famintas que alimentar.
                Mãe.
                Mas o homem olhou, olhou com força, olhou tanto até achar que tinha mesmo enxergado Passarim. E pela primeira vez em tantos anos, uma branquidão de vazio sem fim se fez na cabeça do homem. Não havia um pensamento que pensar nem alquimia de ideias pra misturar. E o homem se viu tão atento que mal percebeu que podia respirar outra vez.
                O tempo se esticou com o homem na janela. A lua minguou e tornou inchar, e lá estava ele, olhando. Queria ver e entender mais fundo a pequenez e ligeireza de Passarim; sempre que ele achava que sabia, algo mostrava a ele que não. Ele achava que sabia, até Passarim voar. Então, olhava até aprender.
                Quando achou outra vez que sabia, Passarim cantou. E o homem se viu cada vez mais cheio de não entendimento, e cada vez mais querendo entender.
                O tempo esticou, preguiçoso, ensaiando ir embora, e o homem ainda olhava.
                Deu-se, porém, que um dia Passarim olhou de volta, e a enormidade do que cabia em sua miudez apavorou o homem.
                Dentro dos olhos de conta de Passarim, o homem viu mundos inteiros; mundos de alegria e tristeza esperando pra serem adivinhados. Milhares deles, todos desafiando o homem a parar de olhar e sentir. Parar de olhar pra embrenhar-se na verdade da vida.
                O homem não foi capaz de sustentar o olhar.
                Fechou a janela. Apavorado.

                Tinha muitos papeis que organizar.

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MensagemAssunto: Re: Histórias de Passarim   Seg Set 11, 2017 9:15 pm

Isso é uma coletânea de histórias curtas? Acho que seria interessante deixar isso claro e separar elas melhor, incluindo título, esse tipo de coisa. Ficou um pouco confuso do jeito que você postou. As vezes parecia continuações, as vezes pareciam histórias independentes, até agora não entendi direito.

Mas enfim... EU AMEI.
A frase "Aprendi com os bêbados da praça a gostar mais de tortos que direitos. " FOI TUDO, SÉRIO SENSACIONAL.
Seu texto parece poesia... só que em prosa (isso fez sentido? HAUHAUHAUAH)
Gostei principalmente do texto do segundo post. Esse cara se afundando nos papéis e ficando paranóico por isso é claramente eu haha

Minha única crítica é que senti que a personagem do texto do primeiro post merecia uma profundidade maior. Não sinto ter aprendido o suficiente sobre ela para poder ter qualquer tipo de identificação ou reação à personagem.

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MensagemAssunto: Re: Histórias de Passarim   Seg Set 11, 2017 10:10 pm

Socorro, mulher, que alegria! Essa é a primeira vez que socializo esses trechinhos pra fora de um círculo muito, muito íntimo. Estava nervosa!
A conexão entre os trechos é bem confusa mesmo. Como disse, estou experimentando uma linguagem, uma estética nova, que mistura tantas referências que acho que vou precisar de uma auditoria externa pra achar todas!
A ideia é um pouco a estrutura organizativa de "Rayuela", do Cortázar, em que as diferentes partes ao mesmo tempo se encaixam e não, são sobre a mesma coisa e não são, têm uma ordem de leitura e não têm. Bem confuso. 
Em termos de linguagem, tô brincando muito com a Janaína Amado, com o Manoel de Barros, e outras figuras que se apropriaram dessa fala mais popular, mais brasileira, mais nordestina. Graciliano, talvez, embora eu use adjetivos demais pra isso, rsrsrs.
ENFIM, é um laboratório, experimentação. A ideia é ir adicionando mais e mais trechos conforme forem escritos, que vão refinando mais a percepção de quem é Passarim (aliás, vou postar mais um agora porque me empolguei).

Obrigada, muito muito, pelo retorno! <3

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MensagemAssunto: Re: Histórias de Passarim   Seg Set 11, 2017 10:14 pm

Parte III, Alma Canora:
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     Era uma vez um pássaro-menino de outro mundo. Diz que era (tinha sido) anjo cristão, orixá, espírito benfazejo, divindade da mata, elfo, sereia, camponês, gota d’água refletindo arco-íris – muitas coisas em muitas eras, sempre que queria. Mas diz que da vez desse era uma vez, deu de ser gente, pois que lhe agradavam os cheiros e cores de ser gente, e lhe compadeciam as dores de ser gente. Era uma vez, portanto, um pássaro-menino de outro mundo que era gente no nosso.
       Sua alma brincante se dedicava a colorir o cinza com o brilhante que a gente – cinza – tinha esquecido. A dizer coisas bonitas que a gente – triste – não lembrava ouvir. A cantar as canções de seu mundo pra gente muda do nosso. Passarinhava pelo mundo, e quem soube ver encantava-se com a forma como seus olhinhos de conta se fechavam tão devagarzinho na hora de dormir, como se equilibrava numa perna só, comprida toda vida, sem cair, como seus dentes rebrilhavam feito pérolas no sorrir.
      Pássaro-menino, colibri, sabia e se deliciava das cores e cheiros de ser gente, se compadecia das dores da gente... mas há uma parte de ser desse mundo que não alcançava, não conseguia entender: as etiquetas. Primeiro as de preço, que estavam penduradas em tudo – nas plantas, nos prédios, nas lágrimas, no amor, nas gentes até – e que não lhe diziam nada, enquanto pareciam dizer muito aos outros. E por baixo das de preço, estavam as etiquetas do que cada gente podia ser e fazer; pássaro-menino notou com surpresa que quase toda gente levava sua vida guiada pelos dizeres etiquetados em si e nas coisas, e aprendeu a lamentar e a querer tanto que assim não fosse. Aprendeu a buscar nas gentes sem preço a força pra lutar contra aqueles rótulos entregues antes do nascimento, nada mais que pedaços de papel.
       Mas as gentes de etiqueta lhe tinham medo, e o medo leva as gentes a amedrontar e fazer coisas de pesadelo; não sabiam imaginar uma vida sem correntes, e decidiram calar pássaro-menino.
       
       A arma dos que têm medo é o medo. A violência e o jeito de usar a violência.
       
       Decidiram calar pássaro-menino, sem saber de sua eternidade.
       
       ***
       Quando seu corpo de gente jazia em vão, atrofiado, cinza e pequeno, sua alma chorou. Por dias e dias, semanas e meses, sua alma canora chorou até se sentir oca – até não sentir as dores, nem as cores, nem os cheiros, nem mais nada.
       
        ***
      
      Mas foi nessa tela em branco que suas muitas existências – de sereia, gota, anjo e divindade e tudo o que quis ser – tornaram a despejar colorido e calor. A alma de pássaro-menino tornou a lampejar, e decidiu: voltaria. E seria outra vez gente. Cantaria, usaria longos os cabelos; e até o mundo desaprender o medo, sofreria novas dores de morte e tornaria a voltar.
       
       
        Até o mundo desaprender o medo.

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MensagemAssunto: Re: Histórias de Passarim   Ter Set 12, 2017 11:44 am

Ah, entendi. São histórias curtas, separadas, mas que fazem parte de um mesmo universo e podem (ou não) vir a se cruzar em algum momento. É isso?

Esse do pássaro menino ficou lindo. Tristíssimo, mas lindo. Gostei demais da forma como você trabalhou a fantasia no texto. Quando pensam em fazer um texto de fantasia geralmente sai aquele cenário Tolkien de fantasia medieval. Aqui não, você conseguiu misturar vários folclores e mitos (sereias, elfo, orixá, anjo...) sem perder a unidade de cenário e se manteve fiel à ambientação universal, sem cair no clichê Tolkien ou em qualquer outro menos comum.

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MensagemAssunto: Re: Histórias de Passarim   Ter Set 12, 2017 5:33 pm

É meio que isso mesmo! Tô justamente tentando me desprender dessa estética Tolkien de ser... acho que temos muitos exemplos de realismo fantástico na literatura e no folclore brasileiro que a gente quase não explora, quase não conhece, quase não valoriza. 

Esse último foi escrito num acesso de raiva, depois de saber do estado de uma amiga trans, a Caju, que sofreu uma tentativa de homicídio. Está num entra e sai de hospital, paraplégica e meio que em estado vegetativo, há uns três anos... a avaliação de todo mundo e de que ela não vai voltar. Assim são as coisas num mundo cheio de medo, e se nossa raiva não vence esse medo, nosso amor vence.

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